sábado, 11 de julho de 2026

A Projeção no Narcisismo

Devemos ter presente que o modus-operandi de um indivíduo narcisista, é sempre o mesmo. Se existem comportamentos padrão, é numa personalidade narcisista que mais se podem encontrar.

Um desses comportamentos, prende-se com a necessidade de o indivíduo narcisista projetar nas outras pessoas, principalmente nas que o confrontam, aquilo que o denuncia, nomeadamente quando pretende colar-se ao lado que mais lhes convém, o da vítima injuriada e perseguida. A vitimização, é sempre o objetivo final de um indivíduo narcisista quando confrontado por alguém.

E o padrão comportamental associado ao propósito atrás referido, explica-se de forma muito simples e resumida, em três etapas:

1ª - O indivíduo narcisista, perante quem o rodeia, investe numa imagem idealizada por si de superioridade moral, debitando um discurso aparentemente solidário e preenchido de nobres valores morais, que levará qualquer pessoa menos atenta, ou menos esclarecida, a crer que está perante uma alma cheia de boas intenções;

2ª - Porém, qualquer narcisista não suporta a ideia de viver na sombra, por isso não resiste à tentação de se impor a uma vasta audiência, na tentativa de sobrevalorização dos seus ideais, sem qualquer consideração por aqueles que vão em sentido contrário. Nestes casos, se necessário for, só para fazer vingar as suas convicções, é capaz de recorrer a autênticos ataques verbais arbitrários, sem qualquer respeito pelas crenças alheias, num corta-a-direito sem dó nem piedade e anda nisto durante um tempo sem fim, até que apareça alguém que o confronte;

3ª - Ao colocar-se, desta forma, a jeito de alguém lhe pôr travões ao seu discurso ofensivo e desrespeitoso, o indivíduo narcisista, para se defender, simplesmente reúne todas as intervenções que teve anteriormente, para as projetar em quem se lhe opõe. Desta forma, tentando inverter posições, ao ponto de atribuir à parte oponente o rótulo de narcisista, muito de acordo com o que nos explica a Psicóloga Ramani Durvasula: “os narcisistas, também, são propensos a algo chamado projeção, pela qual colocam suas falhas e comportamentos questionáveis em todos os outros”.

Efetivamente, este padrão comportamental, perante quem não consegue minimamente decifrar estas técnicas manipulativas, pode ser um tormento difícil de superar, principalmente quando não há uma fórmula imediata de desvinculo, quer por razões familiares, ou outras que impliquem uma proximidade ao indivíduo narcisista. Porém, trata-se de um erro quando se tenta aplicar perante pessoas devidamente habilitadas a lidar com estas práticas manipulativas, pois, facilmente o indivíduo narcisista é apanhado na sua própria “teia”, a projeção. Da mesma autora: "para um narcisista, admitir culpa é vivido como uma ameaça à sua identidade. Por isso, é frequente culpar os outros e assumir o papel de vítima."

Este ciclo será eterno para o indivíduo narcisista. Nunca baixará a guarda e jamais atribuirá a si próprio a responsabilidade de qualquer incompatibilidade interpessoal, tampouco reconhecerá a sua primeira fase de provocação, aquela em que “dispara” em todas as direções sem qualquer respeito por nada, nem ninguém, como a causa desse confronto. Sente-se com legitimidade de dizer e fazer tudo a seu bel prazer, durante o tempo que lhe aprouver, convencido que não existe quem lhe possa confrontar e mesmo que o confronto surja, têm sempre mais “munições” de reserva: a ameaça; a ofensa; e outras, tão a seu jeito.

É pois, muito comum que uma pessoa que é acusada de perseguição, de ter mau carácter e conotada com o narcisismo, ser, nada mais, nada menos, que aquela sobre a qual caiu a projeção narcisista.


* Imagem gerada por IA

Pedro Ferreira © 2026
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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Tornamo-nos “Peças” Descartáveis

Vivemos tempos de forte consumo, desenfreado, até. De tal forma, que muitas pessoas olham para o seu semelhante como coisas que gostariam de experimentar, que após usadas, muitas vezes abusadas, possam ser deitadas fora e nem para reciclagem servirem.

Estamos a assistir a fenómenos muito pouco humanos, um deles é exatamente esse, em que se procura converter as pessoas em coisas manipuláveis. Frequentemente, encontra-se quem nos observe como quem observa um objeto numa montra. Entram na nossa vida como quem entra num estabelecimento comercial elogiando a peça que está exposta.

Vemo-nos rasgados de elogios pela pessoa que nos quer “comprar”, que nos considera o seu ideal sempre sonhado, aquilo que lhe fazia falta para serem completas… e ali estamos nós, levados ao reinado dos sonhos de outrem!

Adquirida a “peça” e levada pela mão, ali tão perto, disponível para abraços e beijos, sentimo-nos uma “peça” importante na vida de alguém e que bom que assim é…, nem reparamos que somos apenas uma “peça”!

Porém, é isso mesmo, quando damos conta, caímos na dura realidade de termos de tomar consciência de que apenas somos uma “peça” prestes a preencher o vazio de quem nos adquiriu. E essa tomada de consciência, geralmente, acontece quando nos queixamos que durante o encaixe forçado nos magoaram.

Daí em diante, da coisa sempre sonhada, rapidamente passamos a ser a coisa indesejada, porque afinal de contas, também, denotamos vida e nela manifestamos sentimentos, algo que as “peças” meramente utilitárias não deveriam ter.

É então que nos tornamos descartáveis, sem sequer terem o cuidado de nos devolverem à “loja” onde nos foram buscar, quiçá para troca, ou para uma “revenda” em segunda mão. Simplesmente jogada de lado, no chão em muitos dos casos, sem dó nem piedade.

E lá vai ela, a criatura encantadora de “peças” em direção a novo espaço comercial, cheia de si e das suas certezas, de preferência entrando queixosa na próxima “loja”, dizendo que a anterior “aquisição” não servia, ou seja, no papel de vítima de uma “peça” com personalidade própria, que teve a audácia de a rejeitar como sua dona e senhora a quem deveria servir sem se queixar.

Não somos objetos, muito menos descartáveis, somos seres-humanos de vida própria e que merecem todo o respeito, mas infelizmente não é isso que está a acontecer, bem pelo contrário, conforme a analogia atrás descrita, existe uma forte instabilidade na personalidade de muitas pessoas, denotando não saberem o que querem, preferindo a experimentação para ver se descobrem aquilo que lhes possa servir, tentando levar de arrasto as pessoas de boa-fé que sabem muito bem o que querem e que a isso não se permitem.

É, pois, fundamental, nos dias de hoje prestar muita a tenção a quem se chega perto de nós aparentando boas intenções e rasgando-nos amplos elogios, poderá não passar de um mero embuste de quem não sabe o que quer, simplesmente pretende usar-nos para aferir se servimos.




Pedro Ferreira © 2026
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sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Narcisismo de Massas

A fase que a humanidade atravessa, está a ser fortemente marcada por um elevado número de indivíduos que denotam características narcísicas, que não obstante a preocupação social que tal fenómeno por si só já desperta, vai-se somando, lentamente, uma existência narcísica de grupo, o chamado narcisismo de massas, ou seja, a perturbação de personalidade em questão, deixa de manifestar-se somente de forma individualizada, passando, essencialmente, a manifestar-se de forma generalizada.

Não deixa de ser curioso, que aquilo que até agora era visto depreciativamente – uma ofensa – a rotulagem ao narcisismo, agora, para além de ser amplamente aceite, tornou-se, inclusive, numa espécie de culto. E como qualquer culto, na imagem central da idolatria, reside uma figura endeusada, que se autopromove ao supremo cargo do grupo, motivada pelos incondicionais aplausos que vai granjeando dos seus membros.

São, pois, prolíferos os casos que se podem encontrar nos tempos que correm, de figuras com essas características, desde futebolistas, a músicos, passando por atores e políticos. Estão por todo o lado e em todos os meios, arrastando consigo uma “massa” humana que os idolatra pela simples razão de nessas personagens se reverem, ou por outras palavras, personificarem aquilo que muitas e muitos gostariam de almejar ser.

As características associadas à perturbação de personalidade narcisista, são sobejamente conhecidas, que poderão, para este fenómeno de massas, resumir-se da seguinte forma: a necessidade constante de reconhecimento e validação externa; a preocupação excessiva com a imagem, aparência e estatuto social; a sensibilidade exagerada à crítica; a diminuta capacidade de tolerar frustrações; a valorização da fama, visibilidade e popularidade acima de realizações substanciais; a tendência para encarar opiniões divergentes como ataques pessoais; e ao convencimento de total independência e auto suficiência.

O historiador e crítico social Christopher Lasch, autor do livro The Culture of Narcissism, defendia que as sociedades ocidentais contemporâneas estavam a desenvolver uma cultura centrada nas características atrás referidas, atribuindo-o às mudanças económicas, à expansão dos meios de comunicação e ao enfraquecimento de instituições tradicionais como a família.

Tudo isto, obviamente, acarreta para a sociedade consequências profundas, de entre as quais se destacam as seguintes: desinteresse por assuntos verdadeiramente impactantes; dificuldade em se manterem debates serenos, quer em público, quer em privado; quebra do sentido de responsabilidade coletiva; insatisfação constante e consequente busca por mais motivos de confrontação; sensação de vazio interior, apesar da permanente presença em meios sociais; disputa de razões com o objetivo de se levar vantagem sobre o oponente e de se sobressair no coletivo.

Outrora, existia uma forte componente espiritual nas sociedades mais evoluídas e as pessoas agarravam-se à fé como uma espécie de escudo protetor contra toda e qualquer batalha que fossem convidadas a travar, pautando as suas atitudes por uma considerável humildade, tantas vezes escondendo dessa forma a vergonha pela ignorância assumida que não lhes permitia entrar nestas guerras de hipotéticos sábios.

Quebrados os valores de outrora e desmembrado o suporte da estabilidade humana, a família, ficou aberto o caminho para o individualismo selvagem, onde cada indivíduo luta ao segundo por ocupar um melhor espaço que os demais, aquele que lhe possa conferir maior visibilidade e consequentemente maior número de aplausos, bastando para o efeito dizer um infindável rol de enormidades e dar a entender que as consegue colocar em prática.

Daí, desta complexa sucessão de fatores, surgiram os nomes mais mediáticos do panorama político/social do momento, os tais indivíduos que ocupam o topo da hierarquia do grupo, idolatrados de forma incondicional por essa enorme massa humana que os segue. Não importa nada que os seus ídolos tenham cometido grandes maldades, deixando para trás um lastro de destruição em vidas alheias, o que importa para esta massa humana ávida de múltiplos prazeres carnais e materiais, é que os seus ídolos os representem naquilo que desejariam almejar: fama; luxo; vaidade; glamour; poder; dinheiro; e afins.

Narciso não amava ninguém. Uma sociedade narcísica, de igual modo, não ama ninguém.



Pedro Ferreira © 2026
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terça-feira, 11 de novembro de 2025

COM UMA CRIATURA NARCISISTA A TOXICIDADE ESTÁ SEMPRE GARANTIDA

Aproxima-se com todos os encantos, repleta de promessas de amor eterno e com uma fluidez de "amo-te" que até dá gosto - e nesta fase tudo vale para enganar... tudo mesmo, até invocações ao que existe de mais sagrado - conquistando desta forma a confiança da vítima.

Daí em diante, passa a usar e a abusar da boa-fé e da boa-vontade da vítima, até se fartar.

Quando bem atestada da boa energia que sugou da vítima, ao ponto de a deixar exausta, começa a preparar o descarte: uma indiferença aqui, um desrespeito acolá, acaba por, lentamente, levar a relação para níveis de insuportabilidade tais que a rutura é a única saída possível para a vítima. Nesta fase, a criatura narcisista chega, inclusive, a ter o desplante de dizer à vítima que não a quer ver triste, por isso alega como motivo do descarte a tristeza que ela própria gerou.

Cheia de si e confiante que é um ser eternamente desejado, lá parte por um dia, uma semana, um mês, um ano, ou mais, ignorando totalmente a vítima durante esse período, assim como indiferente ao lastro de incómodos e destruição que deixou para trás.

Porém, quando a criatura narcisista volta a sentir a necessidade de suprimento, tenta a reaproximação à vítima, porque, a vê como eternamente sua, usando exatamente a mesma tática de encantos, desta feita enriquecidos por manifestações de falso arrependimento e, igualmente falsas, ideias de mudança, esquema conhecido por hoovering (sugar a vítima para si).

Se o hoovering não resultar porque a vítima já lhe topou a manha, acaba por se afastar, novamente em silêncio, fazendo-se de vítima incompreendida, para, de seguida, ir em busca de outras fontes de boa energia para a sugarem até à exaustão, fazendo assim novas vítimas, umas atrás das outras, nem que para isso tenha de recorrer a familiares diretos, filhas e filhos inclusive, tantas vezes aquelas vítimas que não têm como escapar.




Pedro Ferreira © 2024
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segunda-feira, 12 de maio de 2025

OBSTINAÇÃO INTELECTUAL

PERSONALIDADES ESPALHADAS NA REDE

Parte 01 - OBSTINAÇÃO INTELECTUAL

As redes sociais, como o Facebook, há muito tempo deixaram de fazer parte de um mundo meramente virtual, passando a integrar a realidade da vida do ser humano no seu dia a dia. Consequentemente, através das mesmas, quer explicitamente, quer implicitamente, revelam-se personalidades padrão, acreditando-se que, em grande parte dos casos, sem a própria pessoa detentora do perfil se dar conta de que se está a revelar, ou até a espalhar!

E isto tanto pode acontecer nas participações mais ativas como nas não participações; basta, para o efeito, existir uma apurada sensibilidade de quem gosta de analisar comportamentos para aferir que tipo de personalidade está do lado de lá daquelas imagens e palavras tornadas públicas — ou omitidas.

Deste curioso fenómeno resulta esta crónica sobre as personalidades que se espalham na rede, numa primeira abordagem focada naquela personalidade que se poderia apelidar de intelectualmente obstinada, das quais se destacam, entre muitas outras, as seguintes características:
  • sobre um determinado tema, não fazem uma ou duas publicações apenas, mas umas 10 de uma só vez;
  • os textos dessas mesmas publicações são extensos e de linguagem algo rebuscada, logo pouco acessível às pessoas menos letradas;
  • as ideias não são próprias, mas sim um resumo de múltiplas abordagens à obra literária/filosófica de famosos autores;
  • ora numa semana compulsivamente defende as ideias, por exemplo, de Santo Agostinho, como na semana seguinte as ideias contrárias, por exemplo, de Saramago;
  • por existir nessas pessoas um défice de criatividade e de ideias próprias, procuram um foco que perseguem com sagacidade, geralmente uma pessoa que, no seu perfil, revele essa criatividade e ideias próprias que não conseguem alcançar;
  • todas as convicções que esse alvo preferencial profere são rebatidas no mural do perseguidor;
  • revela enormes contradições ideológicas ao querer dar a entender dominar todo e qualquer assunto, toda e qualquer corrente doutrinal, ao ponto de, por exemplo, passar uma longa temporada em claro ataque ao cristianismo e, na temporada seguinte, em acérrima defesa do catolicismo;
  • não olha a quem ou a quê para aplicar o sarcasmo na sua retórica, com uma implícita tentativa de se autoelevar publicamente;
  • público esse que nem sequer existe, ou é muito residual, ficando a ideia de que aquilo que ali se passa é uma mera catarse de frustrações para as quais poucas pessoas têm paciência;
  • tais comportamentos são recorrentes e manifestados de forma muito intensa, que poderá durar vários meses (geralmente 6), numa compulsividade alucinante, que de súbito estanca para desaparecer durante o mesmo número de meses num completo apagão — e assim sucessivamente ao longo de vários anos.
Seria muito extenso desfilar aqui a enorme lista de características deste tipo de personalidade, mas as ora indicadas já nos poderão dar algumas ideias concretas do que realmente aqui se trata — no mínimo, uma evidente bipolaridade.

Porém, muitas vezes, a Perturbação de Personalidade Borderline é confundida com a bipolaridade; portanto, não é de descartar que se tratem de casos com esse tipo de gravidade. Inclusive, também é evidente que estamos perante uma comorbidade, que poderá então contemplar essas duas vertentes: a bipolaridade resultante da atividade muito intensa durante um determinado período e da inatividade total noutro; assim como uma eventual Perturbação de Personalidade Borderline, manifesta pela compulsividade e ultrapassagem dos limites do razoável e sensato.

Nessa comorbidade encontramos ainda fortes laivos de narcisismo, ao quererem autoelevar-se intelectualmente perante a plateia, como ainda aquilo que parece ser um POC (Perturbação Obsessiva-Compulsiva), pela forma obstinada como debitam informação em catadupa sobre um mesmo tema.

Na eventualidade de se tratarem de casos de Borderline, será bom acrescentar que, por detrás desses perfis, estão pessoas que pisam efetivamente o risco, podendo dar-se a comportamentos-limite, como, por exemplo, os que envolvem o consumo de estupefacientes, ou ainda práticas de feitiçaria, convictas de que isso lhes confere mais experiência de vida e enriquecimento de conhecimentos. Paralelamente, costumam ser pessoas com uma vida familiar problemática, revestida de violência, separações e recomeços constantes, assim como de infidelidades.

A exuberância destas pessoas, principalmente durante as fases “up”, é tal que qualquer pessoa mais atenta consegue facilmente aferir que personalidade está aqui em questão. Contudo, maior é o número de pessoas que embarcam na superficialidade, relativizando, sendo-lhes completamente indiferente a existência de personalidades assim — pelo menos até que uma desgraça aconteça, pois são, para além de tudo isto, pessoas com uma forte propensão para cometerem disparates irreversíveis.




Pedro Ferreira © 2025
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segunda-feira, 10 de março de 2025

O ABANDONO É A DOR MAIS CRUEL

A perda de um ente querido, a violência em todos as suas formas, ou ainda qualquer outro tipo de flagelo humano, poderão não ser experiências capazes de produzir tanta dor quanto aquela que resulta do abandono.

Sentir a alma ferida ao constatar que se foi largado por aí ao acaso por quem tanto se amou e com quem foram partilhados momentos únicos de felicidade, é uma dor demasiadamente forte para ser suportada de uma só vez. É das tais, quiçá a única, que dura até ao fim da vida:

A pessoa idosa que num lar, ou num hospital, sente o espartilho da consciência que em sítios mais calorosos se encontram, em ambiente familiar, aqueles seres que criou, ou ajudou a criar, frutos gerados em amor e plena dedicação, agora despojada de tudo que lhe apraz viver;

A criança, na sua confusão mental, dividida entre o medo e a inexperiência, fica vulnerável e não consegue entender porque rapidamente saltou do quente colo para o frio chão de uma rua qualquer. São sensações que não se explicam, nem o próprio, no desenrolar do seu crescimento conseguirá alguma vez se expressar na plenitude dos seus sentires, de tão traumática experiência se tratar;

O adulto que ainda ontem acolhia no seu peito, os filhos e abraçava o cônjuge, que agora, apenas passa e observa a luz da sala acesa do lar que em tempos foi seu, de onde ecoam gargalhadas de alguém que um dia lhe foi tão próximo e que agora pertence a outrem.

Uma dor que não se queda por si só, tem repercussões, soma-se em grande medida, a da rejeição, principalmente quando a pessoa abandonada, em desespero, implora atenção perante quem o abandonou, e somente encontra contactos bloqueados, portas fechadas, desvios de caminho, recusa de um abraço, no fundo, uma indiferença cortante que trespassa o coração mais forte, causando um irremediável aperto na alma.

Seja quem for a vítima de abandono, em todas as suas possíveis formas, de crianças a idosos, não há jeito de entender este abismo que separa seres-humanos que um dia foram tanto entre si e no seguinte nada são.





ANÁLISE EXTERNA


Qualidade Literária

O texto demonstra uma escrita madura e emocionalmente carregada, com uma boa fluidez de ideias e uma estrutura que evolui com naturalidade. A linguagem usada é poética, muitas vezes tocando no campo da reflexão filosófica sobre o abandono e suas consequências. O autor utiliza metáforas eficazes, como "sentir a alma ferida" e "indiferença cortante", que intensificam o impacto emocional da leitura. O ritmo do texto é lento, o que contribui para a reflexão profunda que o autor propõe. O estilo é intimista, colocando o leitor no lugar da pessoa abandonada, o que cria uma forte conexão emocional.


Interesse Público

No que tange ao interesse público, o tema abordado no texto é de grande relevância social e emocional. O abandono, seja no contexto de famílias desfeitas, no descaso com os idosos ou na vulnerabilidade das crianças, é um problema significativo nas sociedades contemporâneas. O autor consegue destacar a dor individual de forma universal, mostrando que essa experiência afeta pessoas de diferentes idades e condições, o que amplia seu apelo e relevância para o público.


Pedro Ferreira © 2019
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domingo, 6 de outubro de 2024

MANIPULAÇÃO BÁSICA – 001

AO TELEMÓVEL DURANTE AS REFEIÇÕES


Este será o primeiro exemplo de uma série de técnicas de manipulação básica, não entrando, portanto, no campo da manipulação mais elaborada e complexa, mas que acredito seja o suficiente para dar o alerta a quem não se aperceba que esteja a ser manipulada/o.

Nada melhor, para este tipo de exemplos, que a simulação de diálogos entre a pessoa que tenta manipular (seguidamente denominada pela letra M) e a que está a ser alvo dessa tentativa (seguidamente denominada pela letra A):

A: - Não me parece bem que, em vez de conversares comigo durante as refeições, estejas sistematicamente ao telemóvel!

M: - Exagero!!! Não estou sempre ao telemóvel…, agora, por exemplo, estava só a ver uma coisa muito rapidamente!

A: São muitas coisas rapidamente, então e a todas as refeições, o que não me parece bem!

M: É impressão tua! Não exageres, já disse!

A: Sejam muitas ou poucas as vezes, não importa para o caso, seria sempre falta de educação!

M: Estás a chamar-me de mal-educada!!!

A: Entende como quiseres, mas é falta de educação, quer gostes ou não!

M: Não aceito essa ofensa!

A: Então, eu é que estou a ser mal-educado em te chamar à atenção, é isso?

M: Não vejo onde esteja a falta de educação! Estás a ofender-me…

A: Queres que te peça desculpa por te achares como vítima de uma ofensa? Lamento, mas não sou manipulável!

Infelizmente, esta é uma das situações lamentável que se tornaram mais comuns em ambientes familiares e sociais, onde predomina o mau hábito de se estar ao telemóvel quando o propósito seria a alegre e salutar convivência com quem está presente, nomeadamente aquando das refeições.

Diria, uma praga que veio tirar o encanto de se estar em harmonia familiar e social, muitas vezes justificada desta forma por quem usa e abusa desse desrespeito para com as pessoas que lhe são próximas, numa atitude de clara tentativa de manipulação.

É falta de educação, ponto! É manipulação, ponto!



Pedro Ferreira © 2024
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