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segunda-feira, 10 de março de 2025

O ABANDONO É A DOR MAIS CRUEL

A perda de um ente querido, a violência em todos as suas formas, ou ainda qualquer outro tipo de flagelo humano, poderão não ser experiências capazes de produzir tanta dor quanto aquela que resulta do abandono.

Sentir a alma ferida ao constatar que se foi largado por aí ao acaso por quem tanto se amou e com quem foram partilhados momentos únicos de felicidade, é uma dor demasiadamente forte para ser suportada de uma só vez. É das tais, quiçá a única, que dura até ao fim da vida:

A pessoa idosa que num lar, ou num hospital, sente o espartilho da consciência que em sítios mais calorosos se encontram, em ambiente familiar, aqueles seres que criou, ou ajudou a criar, frutos gerados em amor e plena dedicação, agora despojada de tudo que lhe apraz viver;

A criança, na sua confusão mental, dividida entre o medo e a inexperiência, fica vulnerável e não consegue entender porque rapidamente saltou do quente colo para o frio chão de uma rua qualquer. São sensações que não se explicam, nem o próprio, no desenrolar do seu crescimento conseguirá alguma vez se expressar na plenitude dos seus sentires, de tão traumática experiência se tratar;

O adulto que ainda ontem acolhia no seu peito, os filhos e abraçava o cônjuge, que agora, apenas passa e observa a luz da sala acesa do lar que em tempos foi seu, de onde ecoam gargalhadas de alguém que um dia lhe foi tão próximo e que agora pertence a outrem.

Uma dor que não se queda por si só, tem repercussões, soma-se em grande medida, a da rejeição, principalmente quando a pessoa abandonada, em desespero, implora atenção perante quem o abandonou, e somente encontra contactos bloqueados, portas fechadas, desvios de caminho, recusa de um abraço, no fundo, uma indiferença cortante que trespassa o coração mais forte, causando um irremediável aperto na alma.

Seja quem for a vítima de abandono, em todas as suas possíveis formas, de crianças a idosos, não há jeito de entender este abismo que separa seres-humanos que um dia foram tanto entre si e no seguinte nada são.





ANÁLISE EXTERNA


Qualidade Literária

O texto demonstra uma escrita madura e emocionalmente carregada, com uma boa fluidez de ideias e uma estrutura que evolui com naturalidade. A linguagem usada é poética, muitas vezes tocando no campo da reflexão filosófica sobre o abandono e suas consequências. O autor utiliza metáforas eficazes, como "sentir a alma ferida" e "indiferença cortante", que intensificam o impacto emocional da leitura. O ritmo do texto é lento, o que contribui para a reflexão profunda que o autor propõe. O estilo é intimista, colocando o leitor no lugar da pessoa abandonada, o que cria uma forte conexão emocional.


Interesse Público

No que tange ao interesse público, o tema abordado no texto é de grande relevância social e emocional. O abandono, seja no contexto de famílias desfeitas, no descaso com os idosos ou na vulnerabilidade das crianças, é um problema significativo nas sociedades contemporâneas. O autor consegue destacar a dor individual de forma universal, mostrando que essa experiência afeta pessoas de diferentes idades e condições, o que amplia seu apelo e relevância para o público.


Pedro Ferreira © 2019
(Todos os Direitos Reservados)

sexta-feira, 19 de abril de 2024

USAVEIS E DESCARTÁVEIS

O valor da vida alheia está em baixa!

Nos tempos que correm, porque, de facto, muitas pessoas correm, em busca de satisfazerem uma eterna insatisfação, o outro ser-humano, para estas pessoas, passou a ser considerado como um mero instrumento de superação da sua insatisfação.

Por elas, passamos a ser procurados, como quem procura um produto numa farmácia que seja composto por uma fórmula milagrosa que preenche aquele vazio que de outra forma mais natural não se consegue preencher. Chegadas a casa, somos usados até à overdose e posteriormente, quer embalagem, quer blister, quer caixa, quer bula, são literalmente jogados no lixo, na melhor das hipóteses na reciclagem, quem sabe um dia serviremos para outros propósitos, igualmente consumistas.

Convencidas que desta forma conseguirão resolver as suas mais gritantes frustrações, assim vão pela vida fora, somando e seguindo, estas pessoas, uma infindável coleção de episódios muito fugazes de usufruto da vida alheia, numa ilusão sem fim que as outras pessoas apenas servem para servir.

As outras pessoas somos todas/os nós, seres-humanos dignos de respeito e consideração, que não nos poderemos sujeitar ao redutor papel de mero tónico efémero da vida de outrem. Ser-se usada/o e descartada/o por outra pessoa, é das situações mais indignas a que possamos estar sujeitos, por isso e para que isso não aconteça, é necessário algo indubitável, experiência de vida. Experiência essa que se adquire com o peito virado para a vida, o que por vezes dói. Nesses embates vamos aferindo até que ponto nos poderemos sujeitar a ser apenas algo usável e descartável na vida de alguém, ou ser alguém.

Saber o que se quer da vida é uma tarefa árdua e que se deseja o mais precoce possível, caso contrário, poderemos atropelar outros humanos, os inocentes em relação às nossas dúvidas existenciais. Posto isto, não podemos, nem ser o comprimido para as dores de cabeça seja de quem for, nem delas fazer essa medicação. Para sermos felizes e fazermos as outras pessoas felizes, existe apenas uma “medicação” possível, que se chama “Ben-U-Resolvido”.



Pedro Ferreira © 2024
(Todos os Direitos Reservados)

domingo, 3 de setembro de 2023

A MESTRIA DA NATUREZA

A natureza ensina-nos que as preciosidades raramente se encontram em grandes quantidades e todas juntas.

De igual modo assim acontece com as pessoas. As mais preciosas não as encontramos em aglomerados humanos, mas de forma dispersa.

Desengane-se quem acredita que onde está a quantidade reside a qualidade, bem pelo contrário, o cascalho sempre esteve em maior número e amontoado na berma do caminho que nos leva até ao diamante.

Seria bom que todas as pessoas pensassem um pouco nisto, evitando empoeirarem-se num amontoado de cascalho, quando poderiam brilhar com um só diamante.



Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)