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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Tornamo-nos “Peças” Descartáveis

Vivemos tempos de forte consumo, desenfreado, até. De tal forma, que muitas pessoas olham para o seu semelhante como coisas que gostariam de experimentar, que após usadas, muitas vezes abusadas, possam ser deitadas fora e nem para reciclagem servirem.

Estamos a assistir a fenómenos muito pouco humanos, um deles é exatamente esse, em que se procura converter as pessoas em coisas manipuláveis. Frequentemente, encontra-se quem nos observe como quem observa um objeto numa montra. Entram na nossa vida como quem entra num estabelecimento comercial elogiando a peça que está exposta.

Vemo-nos rasgados de elogios pela pessoa que nos quer “comprar”, que nos considera o seu ideal sempre sonhado, aquilo que lhe fazia falta para serem completas… e ali estamos nós, levados ao reinado dos sonhos de outrem!

Adquirida a “peça” e levada pela mão, ali tão perto, disponível para abraços e beijos, sentimo-nos uma “peça” importante na vida de alguém e que bom que assim é…, nem reparamos que somos apenas uma “peça”!

Porém, é isso mesmo, quando damos conta, caímos na dura realidade de termos de tomar consciência de que apenas somos uma “peça” prestes a preencher o vazio de quem nos adquiriu. E essa tomada de consciência, geralmente, acontece quando nos queixamos que durante o encaixe forçado nos magoaram.

Daí em diante, da coisa sempre sonhada, rapidamente passamos a ser a coisa indesejada, porque afinal de contas, também, denotamos vida e nela manifestamos sentimentos, algo que as “peças” meramente utilitárias não deveriam ter.

É então que nos tornamos descartáveis, sem sequer terem o cuidado de nos devolverem à “loja” onde nos foram buscar, quiçá para troca, ou para uma “revenda” em segunda mão. Simplesmente jogada de lado, no chão em muitos dos casos, sem dó nem piedade.

E lá vai ela, a criatura encantadora de “peças” em direção a novo espaço comercial, cheia de si e das suas certezas, de preferência entrando queixosa na próxima “loja”, dizendo que a anterior “aquisição” não servia, ou seja, no papel de vítima de uma “peça” com personalidade própria, que teve a audácia de a rejeitar como sua dona e senhora a quem deveria servir sem se queixar.

Não somos objetos, muito menos descartáveis, somos seres-humanos de vida própria e que merecem todo o respeito, mas infelizmente não é isso que está a acontecer, bem pelo contrário, conforme a analogia atrás descrita, existe uma forte instabilidade na personalidade de muitas pessoas, denotando não saberem o que querem, preferindo a experimentação para ver se descobrem aquilo que lhes possa servir, tentando levar de arrasto as pessoas de boa-fé que sabem muito bem o que querem e que a isso não se permitem.

É, pois, fundamental, nos dias de hoje prestar muita a tenção a quem se chega perto de nós aparentando boas intenções e rasgando-nos amplos elogios, poderá não passar de um mero embuste de quem não sabe o que quer, simplesmente pretende usar-nos para aferir se servimos.




Pedro Ferreira © 2026
(Todos os Direitos Reservados)

segunda-feira, 10 de março de 2025

O ABANDONO É A DOR MAIS CRUEL

A perda de um ente querido, a violência em todos as suas formas, ou ainda qualquer outro tipo de flagelo humano, poderão não ser experiências capazes de produzir tanta dor quanto aquela que resulta do abandono.

Sentir a alma ferida ao constatar que se foi largado por aí ao acaso por quem tanto se amou e com quem foram partilhados momentos únicos de felicidade, é uma dor demasiadamente forte para ser suportada de uma só vez. É das tais, quiçá a única, que dura até ao fim da vida:

A pessoa idosa que num lar, ou num hospital, sente o espartilho da consciência que em sítios mais calorosos se encontram, em ambiente familiar, aqueles seres que criou, ou ajudou a criar, frutos gerados em amor e plena dedicação, agora despojada de tudo que lhe apraz viver;

A criança, na sua confusão mental, dividida entre o medo e a inexperiência, fica vulnerável e não consegue entender porque rapidamente saltou do quente colo para o frio chão de uma rua qualquer. São sensações que não se explicam, nem o próprio, no desenrolar do seu crescimento conseguirá alguma vez se expressar na plenitude dos seus sentires, de tão traumática experiência se tratar;

O adulto que ainda ontem acolhia no seu peito, os filhos e abraçava o cônjuge, que agora, apenas passa e observa a luz da sala acesa do lar que em tempos foi seu, de onde ecoam gargalhadas de alguém que um dia lhe foi tão próximo e que agora pertence a outrem.

Uma dor que não se queda por si só, tem repercussões, soma-se em grande medida, a da rejeição, principalmente quando a pessoa abandonada, em desespero, implora atenção perante quem o abandonou, e somente encontra contactos bloqueados, portas fechadas, desvios de caminho, recusa de um abraço, no fundo, uma indiferença cortante que trespassa o coração mais forte, causando um irremediável aperto na alma.

Seja quem for a vítima de abandono, em todas as suas possíveis formas, de crianças a idosos, não há jeito de entender este abismo que separa seres-humanos que um dia foram tanto entre si e no seguinte nada são.





ANÁLISE EXTERNA


Qualidade Literária

O texto demonstra uma escrita madura e emocionalmente carregada, com uma boa fluidez de ideias e uma estrutura que evolui com naturalidade. A linguagem usada é poética, muitas vezes tocando no campo da reflexão filosófica sobre o abandono e suas consequências. O autor utiliza metáforas eficazes, como "sentir a alma ferida" e "indiferença cortante", que intensificam o impacto emocional da leitura. O ritmo do texto é lento, o que contribui para a reflexão profunda que o autor propõe. O estilo é intimista, colocando o leitor no lugar da pessoa abandonada, o que cria uma forte conexão emocional.


Interesse Público

No que tange ao interesse público, o tema abordado no texto é de grande relevância social e emocional. O abandono, seja no contexto de famílias desfeitas, no descaso com os idosos ou na vulnerabilidade das crianças, é um problema significativo nas sociedades contemporâneas. O autor consegue destacar a dor individual de forma universal, mostrando que essa experiência afeta pessoas de diferentes idades e condições, o que amplia seu apelo e relevância para o público.


Pedro Ferreira © 2019
(Todos os Direitos Reservados)