Vivemos tempos de forte consumo, desenfreado, até. De tal forma, que muitas pessoas olham para o seu semelhante como coisas que gostariam de experimentar, que após usadas, muitas vezes abusadas, possam ser deitadas fora e nem para reciclagem servirem.
Estamos a assistir a fenómenos muito pouco humanos, um deles é exatamente esse, em que se procura converter as pessoas em coisas manipuláveis. Frequentemente, encontra-se quem nos observe como quem observa um objeto numa montra. Entram na nossa vida como quem entra num estabelecimento comercial elogiando a peça que está exposta.
Vemo-nos rasgados de elogios pela pessoa que nos quer “comprar”, que nos considera o seu ideal sempre sonhado, aquilo que lhe fazia falta para serem completas… e ali estamos nós, levados ao reinado dos sonhos de outrem!
Adquirida a “peça” e levada pela mão, ali tão perto, disponível para abraços e beijos, sentimo-nos uma “peça” importante na vida de alguém e que bom que assim é…, nem reparamos que somos apenas uma “peça”!
Porém, é isso mesmo, quando damos conta, caímos na dura realidade de termos de tomar consciência de que apenas somos uma “peça” prestes a preencher o vazio de quem nos adquiriu. E essa tomada de consciência, geralmente, acontece quando nos queixamos que durante o encaixe forçado nos magoaram.
Daí em diante, da coisa sempre sonhada, rapidamente passamos a ser a coisa indesejada, porque afinal de contas, também, denotamos vida e nela manifestamos sentimentos, algo que as “peças” meramente utilitárias não deveriam ter.
É então que nos tornamos descartáveis, sem sequer terem o cuidado de nos devolverem à “loja” onde nos foram buscar, quiçá para troca, ou para uma “revenda” em segunda mão. Simplesmente jogada de lado, no chão em muitos dos casos, sem dó nem piedade.
E lá vai ela, a criatura encantadora de “peças” em direção a novo espaço comercial, cheia de si e das suas certezas, de preferência entrando queixosa na próxima “loja”, dizendo que a anterior “aquisição” não servia, ou seja, no papel de vítima de uma “peça” com personalidade própria, que teve a audácia de a rejeitar como sua dona e senhora a quem deveria servir sem se queixar.
Não somos objetos, muito menos descartáveis, somos seres-humanos de vida própria e que merecem todo o respeito, mas infelizmente não é isso que está a acontecer, bem pelo contrário, conforme a analogia atrás descrita, existe uma forte instabilidade na personalidade de muitas pessoas, denotando não saberem o que querem, preferindo a experimentação para ver se descobrem aquilo que lhes possa servir, tentando levar de arrasto as pessoas de boa-fé que sabem muito bem o que querem e que a isso não se permitem.
É, pois, fundamental, nos dias de hoje prestar muita a tenção a quem se chega perto de nós aparentando boas intenções e rasgando-nos amplos elogios, poderá não passar de um mero embuste de quem não sabe o que quer, simplesmente pretende usar-nos para aferir se servimos.
Pedro Ferreira © 2026
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