sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Narcisismo de Massas

A fase que a humanidade atravessa, está a ser fortemente marcada por um elevado número de indivíduos que denotam características narcísicas, que não obstante a preocupação social que tal fenómeno por si só já desperta, vai-se somando, lentamente, uma existência narcísica de grupo, o chamado narcisismo de massas, ou seja, a perturbação de personalidade em questão, deixa de manifestar-se somente de forma individualizada, passando, essencialmente, a manifestar-se de forma generalizada.

Não deixa de ser curioso, que aquilo que até agora era visto depreciativamente – uma ofensa – a rotulagem ao narcisismo, agora, para além de ser amplamente aceite, tornou-se, inclusive, numa espécie de culto. E como qualquer culto, na imagem central da idolatria, reside uma figura endeusada, que se autopromove ao supremo cargo do grupo, motivada pelos incondicionais aplausos que vai granjeando dos seus membros.

São, pois, prolíferos os casos que se podem encontrar nos tempos que correm, de figuras com essas características, desde futebolistas, a músicos, passando por atores e políticos. Estão por todo o lado e em todos os meios, arrastando consigo uma “massa” humana que os idolatra pela simples razão de nessas personagens se reverem, ou por outras palavras, personificarem aquilo que muitas e muitos gostariam de almejar ser.

As características associadas à perturbação de personalidade narcisista, são sobejamente conhecidas, que poderão, para este fenómeno de massas, resumir-se da seguinte forma: a necessidade constante de reconhecimento e validação externa; a preocupação excessiva com a imagem, aparência e estatuto social; a sensibilidade exagerada à crítica; a diminuta capacidade de tolerar frustrações; a valorização da fama, visibilidade e popularidade acima de realizações substanciais; a tendência para encarar opiniões divergentes como ataques pessoais; e ao convencimento de total independência e auto suficiência.

O historiador e crítico social Christopher Lasch, autor do livro The Culture of Narcissism, defendia que as sociedades ocidentais contemporâneas estavam a desenvolver uma cultura centrada nas características atrás referidas, atribuindo-o às mudanças económicas, à expansão dos meios de comunicação e ao enfraquecimento de instituições tradicionais como a família.

Tudo isto, obviamente, acarreta para a sociedade consequências profundas, de entre as quais se destacam as seguintes: desinteresse por assuntos verdadeiramente impactantes; dificuldade em se manterem debates serenos, quer em público, quer em privado; quebra do sentido de responsabilidade coletiva; insatisfação constante e consequente busca por mais motivos de confrontação; sensação de vazio interior, apesar da permanente presença em meios sociais; disputa de razões com o objetivo de se levar vantagem sobre o oponente e de se sobressair no coletivo.

Outrora, existia uma forte componente espiritual nas sociedades mais evoluídas e as pessoas agarravam-se à fé como uma espécie de escudo protetor contra toda e qualquer batalha que fossem convidadas a travar, pautando as suas atitudes por uma considerável humildade, tantas vezes escondendo dessa forma a vergonha pela ignorância assumida que não lhes permitia entrar nestas guerras de hipotéticos sábios.

Quebrados os valores de outrora e desmembrado o suporte da estabilidade humana, a família, ficou aberto o caminho para o individualismo selvagem, onde cada indivíduo luta ao segundo por ocupar um melhor espaço que os demais, aquele que lhe possa conferir maior visibilidade e consequentemente maior número de aplausos, bastando para o efeito dizer um infindável rol de enormidades e dar a entender que as consegue colocar em prática.

Daí, desta complexa sucessão de fatores, surgiram os nomes mais mediáticos do panorama político/social do momento, os tais indivíduos que ocupam o topo da hierarquia do grupo, idolatrados de forma incondicional por essa enorme massa humana que os segue. Não importa nada que os seus ídolos tenham cometido grandes maldades, deixando para trás um lastro de destruição em vidas alheias, o que importa para esta massa humana ávida de múltiplos prazeres carnais e materiais, é que os seus ídolos os representem naquilo que desejariam almejar: fama; luxo; vaidade; glamour; poder; dinheiro; e afins.

Narciso não amava ninguém. Uma sociedade narcísica, de igual modo, não ama ninguém.



Pedro Ferreira © 2026
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